• Laura Machado

A jornada da princesa escondida e seus obstáculos


Era março de 2014 quando eu vi a capa do livro A Seleção pela primeira vez em uma livraria. Naquela época, eu não lia quase nada e tinha me afastado dos livros durante a faculdade de Moda. Aquela capa me lembrou de que eu tinha outros sonhos, outros planos, que havia deixado escondidos em uma gaveta qualquer. Naquele dia, eu voltei para casa e comecei a desenhar uma personagem que ainda não tinha história ou propósito. Testei vários sobrenomes quando percebi que Elisa era o único nome para ela. Soube desde o começo que ela seria uma princesa, como quem sabe respirar, sabia que ela seria escondida e que quase ninguém veria este detalhe que a tornava especial. Desenhei a Elisa mais um pouco, em várias posições, com roupas diferentes, até que a desenhei com um uniforme de uma escola fictícia. Belforte nasceu assim, por si só e sem que eu pudesse controlar. Então, no dia em que decidi acabar com uma amizade que tinha sido maravilhosa e então se tornado tóxica, eu comecei a escrever a história de A princesa escondida.


Hoje, mais de seis anos depois, não consigo evitar me perguntar por que continuo insistindo nessa história. Preciso urgentemente que alguém pegue na minha mão, olhe nos meus olhos e me diga para largar a Elisa, que meus livros são ruins, que eu escrevo mal, que uma editora nunca, jamais vai considerar publicá-los. Preciso, porque não sei se ainda tenho coração ou coragem para aguentar mais tudo que venho fazendo e passando desde o dia 24 de março de 2014, em que comecei a considerar que poderia ser escritora. Não sei se aguento mais.


"Conheça seus desejos e suas fraquezas, e ninguém nunca poderá usá-los contra você."

Naquela época, cheguei a escrever dois livros inteiros do que acabaria por ser uma trilogia, ambos em inglês (porque era tudo que eu lia e há muito tempo se tornou como eu penso). Fui feliz da vida registrar na biblioteca nacional e mandar para agentes americanos. Fico muito feliz de aquela primeira versão, que eu tanto sentia que merecia ser publicada, não ter sido. Definitivamente não merecia. Era mais do que um primeiro rascunho, era um primeiro rascunho de uma pessoa que nunca tinha escrito nada profissionalmente e estava delirando, achando que tinha espaço no mercado editoral para ela. Depois dela, depois de escrever uma fanfic de cento e cinquenta capítulos e várias histórias paralelas e conquistar alguns leitores, eu passei mais dois anos ainda insistindo naquela versão. Por alguma razão, não estava funcionando, eu não conseguia passar do começo do terceiro livro.


Então, durante o final de 2015, percebi que o problema estava na base da história e na língua em que escrevi, que não alcançava meus novos leitores. Replanejei do começo, passei meses desenhando mapas, decidindo nomes, procedimentos da escola que nunca chegaram a ser mencionados, e, no começo de 2016, eu escrevi o livro A princesa escondida do começo. Ele ganhou espaço no Wattpad, conquistou mais de um milhão e meio de leituras e um lugar no antigo Destaque de Ficção Adolescente.


Em alguns meses, eu já tinha escrito o suficiente para três livros. Naquela época, imaginava que tinha pouco mais de um só, mas, no segundo semestre daquele ano, entrei em contato com algumas editoras e, depois de mais algumas rejeições, uma aceitou publicar comigo por um esquema de publicação independente com assistência da editora. Foi aí que percebi que meu primeiro livro era grande demais, que estava mais para dois, e que a minha série teria que ter sete livros! Me recusei a aceitar e replanejei a história para ter no máximo seis.

A primeira vez que a editora me mandou meu livro preparado foi também meu primeiro baque. Tinha tantas coisas modificadas na estrutura, coisas que tiravam detalhes importantes para mim, que me perguntei se estava na profissão certa. Enquanto isso, as mudanças que eu mais queria, as críticas de enredo, não vinham. Não fui eu quem fez a diagramação, mas muitas vezes quis levar o crédito, pois orientei cada detalhe dela. Quando a capista que eu queria que eles contratassem não estava conseguindo entender e passar o que eu queria para a capa, eles me pressionaram a aceitar uma que não tinha nada a ver com a história e que eu tinha detestado. Fui correndo atrás do Marcus Pallas, que faria o design de toda a minha vida se eu pudesse pagar, e o contratei por fora. Ele fez a capa mais maravilhosa que eu podia imaginar, mas a editora foi lá e imprimiu ela errada, escura demais, transformando o vinho/rosa em marrom que eu escondo na minha estante até hoje.


Todo esse processo com a editora me fez entrar em uma crise sobre a qual eu ainda tento muito não falar. Só essa menção já me incomoda. Entrei em um estado constante de espera, espera pelo livro ser publicado, espera pela minha vida acontecer. Até hoje, tento muito sair dele, às vezes acho que saí, às vezes percebo que era só impressão. O dia de lançamento foi um choque de realidade, do erro que eu tinha cometido, de quase dezoito mil reais gastos em um livro do qual eu não conseguia ter orgulho. Se continuei vendendo o livro, falando dele e me declarando a "autora da série A princesa escondida", era só pelos leitores, que continuavam me apoiando.


Acho que eu estava desesperada para esse livro valer a pena. Paguei por uma loja online e cobrei só o preço de custo do livro e do frete, gastando quase quinhentos reais por ano só para poder vender para pessoas do Brasil inteiro. Me coloquei em um emprego que tirou todas as minhas energias e me fazia sentir que não tinha tempo nem de respirar, a ponto de eu ainda ter pesadelos com ele. Pelo menos eu conseguia manter meu livro à venda. A editora Novo Século nunca chegou a me pagar um centavo pela venda de e-book, depois de meses enrolando para o disponibilzar, aliás, mesmo com muita insistência minha. Para eles levarem meu livro para a bienal, eu tive que pedir e insistir. Parecia que estava constantemente nadando contra a maré, e para quê? Para vender um livro com uma capa que tinha saído errado, a ponto de eu nem querer vê-lo nas estantes das pessoas, com uma história qualquer?


"Quem era eu para não arriscar o mundo inteiro por ele?"

Por que eu continuei insistindo nessa história? Alguém consegue me dizer? Cheguei a imprimir o segundo livro e revisar várias vezes, com a ajuda do meu pai, que é quem mais entende de português que eu conheço, que também faz absolutamente tudo que está ao seu alcance para me ajudar de todas as maneiras possíveis. Só eu e ele já revisamos o segundo livro umas quatro vezes cada, senão mais. Fiz curso de edição de imagem para conseguir fazer as capas dos meus livros, fiz curso de InDesign para cuidar das minhas próprias diagramações. Investi mais do que dinheiro nessa carreira que mal existia. Quando tive a ideia de um brinde perfeito para o segundo livro e fui atrás de um artista brasileiro incrível, percebi o quanto eu gastaria de dinheiro nesse segundo livro (e nos próximos quatro!) e tive que me perguntar: vale a pena? Vale a pena gastar dinheiro que eu já não tenho, pois tive que abandonar aquele emprego tóxico? Vale a pena investir em um livro para ser colocado do lado daquele primeiro que eu nem queria que existisse?


Preciso de alguém que me diga para parar de insistir nessa história, parar de achar que ela ainda vai ser conhecida e celebrada, que ainda vai ter pelo menos uma única editora que a queira de verdade, sem exigir que eu pague e faça metade do trabalho deles para depois errar na única coisa que deviam fazer direito. Preciso de alguém que me fale para parar de imprimir pôsteres, botons e marcadores diferentes como fiz com o primeiro, para parar de usar um dinheiro que eu luto tanto para ter e sobreviver. Preciso que alguém me olhe nos olhos e diga que nunca vai acontecer, porque, senão, nunca vou parar.



Quando estava fazendo as contas do quanto teria que gastar, percebi que não conseguiria. Não tenho orgulho do livro que a Novo Século publicou, não quero que ele seja mais do que uma primeira edição de colecionador, e olhe lá. Resolvi que iria me desprender completamente dele e reescrever a história do zero. Sim, pela milésima vez (quase literalmente), eu me sentei e planejei a história da série inteira do começo ao fim. Tirei partes problemáticas com as quais já não concordava, deixei bem clara a raça de cada personagem (para ninguém nunca mais errar nisso) e adaptei a minha escrita tão intensa e cheia para algo mais rápido e preciso. De seis livros, cheguei a três.


"Tenha paixão pelo que você faz e fé no que você é."

Em 2017, em meio à minha espera, voltei a ler. Desde então, li em média cem livros por ano. Também fiz cursos na LabPub para entender melhor o mercado, além de começar a fazer uma pós-graduação lá de Produção Editorial. Ainda quero poder trabalhar no meio editorial em outros cargos, cheguei até a pensar que nunca tentaria de novo ser escritora, mas parece que não consigo tirar isso de mim. Não consigo deixar de ser escritora, mesmo que tente muito.


E eu tento. Tento desistir, tento não me importar, tento me manter realista. Tento não querer escrever, não me sentar para escrever, não me importar com o que escrevo, mas não consigo.


Tive que planejar a história para ela encaixar em uma trilogia, mas escrevi desde o começo um livro inteiro em duas semanas. Foram as dicas da Lívia Martins no seu perfil no Instagram que me fizeram enxergar a ordem dos acontecimentos com novos olhos. Depois disso, fiz dois grupos de leitores betas, um de pessoas que já tinham lido antes e outro de quem nunca tinha lido. Recebi algumas críticas esmagadoras, de pessoas que nunca chegaram a dar uma chance e reclamavam quando a protagonista tinha o mínimo de dúvida e insegurança, que dispensei. Mas também recebi críticas incríveis, como as da Rayane Barbosa, que me ajudaram a repensar algumas coisas e que me deram esperança, contra todas as expectativas. De quem já tinha lido, só recebi encorajamento, o que é maravilhoso, mas também doloroso.


É maravilhoso pensar que existem pessoas que acreditam tanto nesse livro, como a Amanda Werneck, que estava disposta a apostar nele como meu pai tinha apostado. Ou como a Andréa Araújo, que ouve áudios intermináveis sobre dúvidas e replanejamentos que nunca vão adiante e que lê absolutamente tudo que eu escrevo. Como a Beatriz Pontes, que quer ir bater de porta em porta para fazer as pessoas conhecerem este livro se precisar. É maravilhoso.


Mas é doloroso ter que encarar a realidade de que isso não significa que tem espaço para mim no mercado, não importa quantas editoras e agentes eu tente encontrar. Sonho com o dia em que alguém vai gostar da história e acreditar no meu potencial, se sentar comigo e me contar tudo que eu preciso mudar, tudo que precisa ser melhorado, tudo que vale a pena manter, e então apostar nela com uma editora. Não tenho medo de trabalhar em cima dela, de deixar algum tempo passar, de rever coisas que achava serem essenciais. Faz seis anos que eu coloco todo meu esforço nela, que eu começo do zero, que reinvento e faço tudo que consigo para ter uma chance que nunca vem. Não tenho medo de críticas, só de ter me iludido esse tempo todo.

Preciso mesmo de alguém que me fale que eu escrevo mal, para eu desistir, porque ainda resolvi editar e mudar características básicas da história depois de toda essa terceira escrita. Um dia, quando perguntei a algumas leitoras o que achariam se eu mudasse o país em que a história se passa para um perto do Brasil e com cultura parecida, elas amaram. A reação delas, o brilho nos olhos (que eu tive que imaginar, porque foi uma conversa pelo Whatsapp) foi tanto, que resolvi mudar, mesmo que me desse muito mais trabalho. São para leitores como essas que eu continuo insistindo, ainda quando parece que quase tudo está constantemente contra mim.


Se você ama meus livros, muito, muito obrigada! Mas, se você não gosta deles, se leu A princesa escondida e detestou, se acha que eu escrevo mal, que nunca vou conseguir um agente que acredite em mim, que nunca vou poder encontrar um lugar no mercado editorial, por favor, ME DIGA. Porque eu preciso de alguém para não acreditar em mim, preciso de alguém que me dê uns tapas na cara e me faça acordar e parar de gastar tempo, dinheiro e energia em algo que nunca vai acontecer. Por favor, me diga que eu escrevo mal, que não conseguiria competir com outros livros publicados, que sou tão invisível quanto me sinto. Me diga para desistir.




Todas as citações são do livro A princesa escondida, e abaixo está um vídeo em que mostro meu processo de desenvolvimento dessa história. Para ver o novo mapa e descobrir mais sobre o novo Parforce, clique aqui. Para ler uma amostra dos dois primeiros capítulos da nova versão, clique aqui.




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