• Laura Machado

A princesa escondida (segunda edição)

Atualizado: Set 25





Abaixo, você encontra os dois primeiros capítulos da nova versão do livro A princesa escondida, com a nova ambientação e a capa oficial. Para ler o livro completo, CLIQUE AQUI.




CAPÍTULO UM

Na minha opinião, existem sempre dois tipos de pessoas no mundo. Não importa o assunto, ainda que um dos tipos seja quem não escolhe nenhum ou quem escolhe os dois. Tem quem ama chá, e quem vive a base de café. Quem necessita de palavras para viver, e quem se expressa melhor através de números. Há pessoas racionais e outras que não conseguem controlar suas emoções; quem gosta de regras, e quem vive para quebrá-las, quem nasceu para o sentimento e quem é regido pelos fatos. No final das contas, tudo se resume a uma única divisão, e tem uma em especial que anda me perseguindo ultimamente.

Algumas pessoas se contentam com o que está em sua frente, mas outras vêem em cada situação o potencial de uma aventura, querem pular o muro e ver o que tem do outro lado. Este é meu tipo favorito. São as exploradas, do mundo e de si mesmas, que querem demais, são intensas e falam alto, que não se aguentam de vontade de viver e são elas mesmas, ainda que outras tentem moldá-las para encaixar no que acham ser apropriado. Há algo precioso nisso, nessa força inabalável e muitas vezes solitária. Eu queria ser como elas.

Se você não parar de esfregar esse papel, não vai sobrar nada para eles lerem.

Instintivamente, escondi a carta atrás das costas e me virei para a tia Lena, que ainda estava de pé junto à ilha da cozinha, me olhando do mesmo jeito desde que eu tinha aparecido ali. Não conseguia decifrar se estava feliz ou desapontada, mas definitivamente estava ansiosa. Já tinha mais de quatro opções de café da manhã na mesa, bolo de laranja, pão francês, pão de queijo, mamão e torradas. Ela ainda assim insistia em fazer tapioca. Tia Lena era como eu, não conseguia ficar parada quando estava nervosa, e comida era a melhor coisa para se fazer com mãos inquietas. Meu estômago sempre agradecia.

Está preocupada com eles não aceitarem? ela perguntou, e tive que me esforçar para não deixar meu nervosismo amassar o papel.

Não menti, fingindo uma confiança que não conseguiria ter. Se eles recusarem, eu vou assim mesmo. Faço uma mala e pego o trem ou um ônibus antes que percebam que saí do castelo.

Me virei de volta para a janela, observando a rua como quem não queria nada, como quem não estava nem um pouco pensando em ir se esconder dentro do quarto só de pensar que podia ser um dos seus últimos dias ali. Estava sol, tão quente que não aguentaria ficar naquela casa sem ar condicionado. Ainda era janeiro, e o clima de Parforce conseguia ser cruel no verão, pelo menos na região da capital. A cafeteira do outro lado da rua mantinha suas mesas na calçada para aproveitar o sol.

Me concentrei em uma garota específica, sentada em uma dessas mesas, escrevendo em seu laptop e tomando café com uma mão só. Ela tinha dois livros apoiados ao seu lado, e não consegui deixar de me perguntar se aquela poderia ser eu, se tivesse nascido em outra família e minha “vida normal” não fosse apenas uma ilusão.

— Elisa?

Me virei e sorri como se eu não estivesse tão nervosa quanto minha tia.

— Eu já tomei minha decisão, Lena. Vou estudar em Belforte, caso meus pais me apoiem ou não.

— E como planeja pagar as mensalidades? — ela questionou, virando a última tapioca no prato e o levando até a mesa. Fui atraída pelo cheiro de café e de pão, que fizeram com que me sentasse à sua frente sem pensar. — Você escolheu a escola preparatória mais cara do país.

— Estou acostumada com uma vida de luxo, oras — disse, dando de ombros e suprindo um sorriso.

Minhas mãos foram direto ao café, que viraram o suficiente para um caneca inteira e o adoçaram automaticamente.

— O dinheiro para a escola tem que vir de algum lugar — tia Lena disse.

— Na verdade, não — falei, pegando uma fatia de pão e a usando para enfatizar e apontar para ela. — Eles oferecem bolsas também.

— E vai conseguir bolsa como? Você não é boa em nada, — ouvi a voz de Portia logo antes de ela aparecer e se sentar do meu lado à mesa.

Nossa, muito obrigada pela parte que me toca, queria dizer, mas fiquei quieta. Terminei de passar manteiga na minha fatia e só quando estava prestes a levá-la à boca que respondi:

— Eles têm um programa de Moda. Posso preparar algum tipo de portfólio dos meus desenhos e mandar para eles.

Portia quase se queimou com a água que acrescentava ao seu chá ao se virar para mim. Puxei minha xícara de café mais para a esquerda e discretamente me inclinei para longe dela. O cheiro de chá era mais do que suficiente para me afastar, mas sabia o que estava por vir e não queria ouvir.

— Elisa — ela começou devagar, depois de deixar a garrafa de água na mesa. Falava como se eu tivesse dez anos de idade e vários neurônios a menos. — Se eles te derem uma bolsa para Moda, você vai ter que estudar Moda.

— Sério? — soltei, sem conseguir controlar o sarcasmo, apesar de ter saído bem mais leve do que meu normal e passado completamente despercebido por ela.

— Não sabe o que isso significa? Você teria que ser da Casa das Artes! — Sua voz subiu para um agudo que no final se transformou em uma risada sem humor. — Você não acha que seu pai vai te deixar estudar arte, acha?

— Foi meu pai quem me ensinou a gostar de arte. O Museu Amaranto é seu lugar favorito em Vilareal. Ele ama arte. — me defendi fracamente.

— Claro, para pendurar na parede, não para ser o futuro dos herdeiros do país.

De repente, meu coração acelerou, e eu me forcei a tomar um gole de café, ainda quente demais para minha garganta. Precisava falar alguma coisa. Ela estava ciente de que eu queria estudar moda e vinha já há algum tempo fingindo que não era real. Eu deixava, sabia que deixava só pelo olhar de reprovação de tia Lena, olhar de quem já tinha presenciado cenas demais como aquela. Ela ficou quieta, mas senti que estaria pronta se eu ao menos me virasse na sua direção atrás de apoio.

Mas eu entendia o lado de Portia. Não tinha nenhuma intenção de contar aos meus pais qual Casa escolheria, deixaria que presumissem que ia estudar na mesma que meus irmãos tinham escolhido antes de mim. Só preferia que a minha melhor amiga não jogasse isso na minha cara.

Abri a boca para responder, ainda sem saber o que dizer, mas tia Lena ligou a televisão antes que tivesse que inventar alguma coisa. O barulho distraiu a nós três, e aos poucos o clima desconfortável foi se esvaindo.

— Olha só — Lena disse, forçando uma animação para que aquele assunto ficasse enterrado. — Você não é a única realeza a ir estudar em Belforte esse ano.

— Não fala assim que dá azar — pedi.

— Matthew Wickham não é da realeza, — Portia a corrigiu, sua pronúncia do nome dele mais forçada do que precisava.

Seus olhos foram para a tela do mesmo jeito, seguidos dos meus. Não, Matthew não era da realeza, mas parecia, pelo jeito que ele andava seguido por fotógrafos, acenava para fãs e assinava fotos. Claramente, receber qualquer tipo de celebridade internacional em Parforce era motivo de comoção geral.

A cena cortou para ele entrando em um estúdio e se sentando em um sofá laranja do lado de uma garota loira como ele, de olhos grandes e um sorriso branco demais para ser natural. Ele jogou o cabelo de lado, deu um sorriso capaz de competir com o dela e apoiou o cotovelo na sua mesa, todo charmoso e artificial. Ela lhe fez algumas perguntas, mas o volume estava baixo demais para ganhar da nossa conversa.

— O que fez com que ele decidisse vir estudar logo aqui, nunca vou entender — comentei, voltando a focar no meu café da manhã. Segundo o relógio na parede, eu só tinha quinze minutos para comer.

— Vocês são tão sortudas, não é? — O tom de Lena era provocativo, mas brincalhão. — É o futuro colega de vocês.

Portia balançou a cabeça, e eu revirei os olhos.

— Meu — Portia corrigiu, tão baixo que mal consegui ouvir. — Elisa ainda não está matriculada.

— Vou corrigir isso hoje mesmo.

Ela bufou uma risada.

— Boa sorte.

Não consegui decifrar se era um desejo ou um desafio.



Nós não usamos o túnel dessa vez. O pai de Portia se mantinha Ministro da Saúde há vários anos, e aproveitei que ela teria que ir até o castelo para acompanhá-la. Eu estava acostumada a ir por baixo da terra, tendo que atravessar a antiga e interditada Ala dos Lordes e me locomover lá dentro por túneis nas paredes. Quase nunca tinha a chance de vê-lo como via agora.

O motorista de Portia nos levou pelo caminho histórico. Nós nos aproximamos pela Avenida da Batalha, que ia direto até a frente do portão principal. A cada metro, o castelo ia crescendo atrás dele, um monumento em pedra clara, com torres arredondadas e telhados escuros pontudos, que parecia ter saído de um conto de fadas do qual eu queria muito fazer parte. Nós nem tivemos que parar, pois os guardas do portão o abriram assim que reconheceram a placa, e o motorista fez o contorno até a porta de recepção em um único movimento suave e preciso.

Estava tão emocionada por todo o caminho pelo bairro antigo, que saí do carro quase presa a um sonho. Portia o desfez assim que pôde:

— Por que você resolveu pintar seu cabelo logo agora? — Ela parou de frente para as escadas, e eu me juntei a ela. Apesar de usar saltos, continuava mais baixa do que eu. — Ficou laranja demais.

Engoli em seco. Não adiantava manter meus olhos nas portas azul petróleo ou no arco cinza que nos esperava antes delas. Não conseguiria fugir de seus comentários, nem com uma arquitetura maravilhosa como aquela, que nunca parava de me impressionar.

Respirei fundo.

— Acho extremamente importante mudar o que quisermos do nosso exterior para refletir quem nós somos de verdade — respondi, pensando que Lena teria orgulho da minha resposta, ainda que fosse muito estudada. Ela nunca vinha para o castelo se podia evitar, então tinha ficado no apartamento.

Portia me olhou como se eu fosse louca.

— E ruiva é quem você é de verdade? — Seu tom era de deboche, e ela nem me esperou reagir antes de rir, me dar as costas e subir as escadas em direção às portas.

Não demorou para eu conseguir falar com meus pais. Nós fomos levadas a uma sala no segundo andar perto do escritório do rei e, alguns minutos depois, ele entrou com minha mãe e o pai de Portia. Ela se levantou na mesma hora e lhes fez uma reverência. Normalmente, eu teria continuado sentada, já que o Ministro Benedetti sabia quem eu era, mas achei melhor imitá-la. Queria meus pais amigáveis e dispostos a me dar o que estava prestes a pedir.

Quando já estávamos sozinhos, minha mãe veio me abraçar e meu pai me deu um aperto carinhoso no ombro antes de nos sentarmos. Tirei a carta da minha bolsa e senti minha confiança fraquejar quando ele disse:

— Você tem cinco minutos, Elisa.

Ele indicou para que eu continuasse, mas tivemos que perder parte dos cinco minutos com silêncio quando uma criada entrou e nos serviu o chá. Aceitei a xícara, mas a deixei esfriar sem tomar nenhum gole. O cheiro embrulhava meu estômago, mas aproveitei o tempo que ela levou para observar meus pais.

Rei Vicente ainda era novo para seu cargo, mas não era fácil adivinhar sua idade pelos cabelos grisalhos que tomavam quase toda sua cabeça. Meu pai era grande, bem mais alto que eu e robusto de um jeito forte, ainda que não em forma. Para seu tamanho e presença imponente, os olhos verdes bondosos eram contraste e, às vezes, a única coisa que eu via.

Minha mãe, Rainha Cecília, não tinha nascido na família real e sim em uma família tradicional da Espanha. Ela tinha quase dez centímetros a menos do que eu, mas todo mundo ficava surpreso ao chegar perto dela e descobrir sua verdadeira altura, tamanha sua pose e elegância. Quando eu era criança, tentava andar como ela, mas desisti há muito tempo. Não chegava nem perto. Não tinha cabelo branco em sua cabeça, mas não era por falta de preocupações. Ela o tingia em um loiro escuro tão próximo do natural que combinava perfeitamente com o tom do de Arabella e de Arthur. Só eu tinha nascido com o cabelo castanho característico da Dinastia Vieira, a única que não poderia exibi-lo.

Enquanto eu os observava, minha mãe fazia o mesmo comigo, e seus olhos pousaram em meu cabelo. Eu tinha comentado que pintaria, mas era a primeira vez que ela via.

— Vim pedir uma coisa a vocês — fui direto ao assunto assim que a criada nos tinha deixado, já que isso só me faria ganhar pontos com eles. — É sobre meu estudo.

Os olhos de meu pai se apertaram, mas ele não falou nada.

— Sei que vocês queriam que eu continuasse estudando com tutores até ter dezoito anos. Isso me atrasaria um ano inteiro, já que faço aniversário só em junho, então tive uma ideia melhor.

— Nós não vamos revelar sua identidade antes que você seja maior de idade, Elisa. Não é uma opção — minha mãe fez questão de falar.

Assenti, tentando esconder deles e de mim mesma que tinha tido alguma esperança de fazê-los mudar de ideia em relação a isso também.

— Em setembro, eu me inscrevi no processo de seleção da Escola Preparatória de Belforte — falei, e minha mãe supriu um suspiro de surpresa, enquanto meu pai apertava os olhos. — Com meu nome falso. Elisa Pariseau. Mandei minha redação, minhas notas e uma carta de apresentação. Não falei quem sou, mas eles me aceitaram.

Estiquei minha mão para que meu pai alcançasse a carta, que estava amassada a ponto de quase me fazer querer escondê-la de volta na bolsa. Ele começou a ler, mas eu continuei explicando:

— A ideia não é dizer quem eu sou, mas manter o segredo. Portia também vai estudar lá e a gente pode ver se tem como fazer Ben ganhar uma bolsa ou conseguir o trabalho de um dos guardas, se ele voltar a tempo.

À menção do nome de Ben, meu pai levantou a cabeça e começou a apalpar seus bolsos.

— Aí eles podem me ajudar a me adaptar — concluí.

— Isso me lembra — ele disse, tirando um envelope do bolso de dentro do blazer. — Ele te mandou uma carta.

Eu a peguei e coloquei dentro da bolsa sem parar para ler, apesar de ser a coisa que eu mais queria fazer naquele momento. Uma vez que estava focada, precisava ir até o final. Nem me deixava sentir metade da apreensão sobre tudo que podia me esperar longe do castelo. Era assustador demais ainda para encaixar na minha cabeça, e eu sabia que não podia pensar sem querer desistir.

— Para falar a verdade, Elisa — meu pai começou, depois de entregar a carta para que minha mãe também lesse. Ele parecia estranhamente satisfeito — nós estávamos mesmo conversando sobre a possibilidade de você ir estudar lá como seus irmãos. Estamos em um ano comemorativo do aniversário de George Belforte e temos que aproveitar essa oportunidade única para você.

Que diferença fazia que mais de trezentos anos atrás um nobre português tinha se rebelado e tornado nosso país independente? Achei melhor não perguntar.

— Além disso, Matthew Wickham estudará lá esse ano — minha mãe completou, me fazendo olhar para ela como se tivesse acabado de dizer que o próprio George Belforte tinha voltado do túmulo para estudar artes.

— O que um ator qualquer de reality show da Inglaterra tem a ver comigo? — Não consegui evitar questionar, apesar de saber que não era do tipo de comentário que devia fazer se queria algo deles.

Meus pais trocaram olhares.

— Ele não é só ator, Elisa. É filho de um dos Lordes mais antigos do Reino Unido — meu pai explicou.

O que não mudava em nada para mim.

— Ele é famoso, e é isso que importa — minha mãe esclareceu. — Ninguém olhará para você com ele por lá.

Foi só aí que eu percebi o que isso significava. Nem me deixei respirar fundo, me levantei enquanto minha mãe dizia que iriam organizar minha mudança, que Elena me contataria com os detalhes, dei um último abraço nos dois e andei devagar até a sala vizinha, onde Portia e seu pai me esperavam. Não apressei meus passos até me aproximar das portas de entrada, com medo de que, se me animasse demais, estouraria a bolha de sonho em que estava vivendo.

Eu iria para Belforte. Estudaria em um internato durante um ano, longe da capital, longe do castelo, com meu segredo, mas sem ter que me lembrar dele a cada instante! Eu estudaria em uma sala de aula normal. Isso era tão surreal que me dava vontade gargalhar! Se não tivéssemos passado por várias pessoas no caminho para fora do castelo, teria dançado pelo corredor.

Logo que estava no hall de entrada, levantei o rosto para olhar uma última vez para o castelo, que insistia em me fazer sentir que era uma parte de mim. Foi quando vi meu irmão no final do corredor da Ala Real. Ele conversava com outros homens de terno, parecendo mais velho do que realmente era como irmão do meio. Estava para entrar em um cômodo quando me percebeu o olhando.

Arthur me fez um pequeno aceno com a cabeça, e eu lhe devolvi, pois não podia correr até ele e o abraçar como queria.

— Você vem? — Portia perguntou, e eu ia responder que sim, mas naquele instante recebi uma mensagem de celular:

Benjamin: O rei está prestes a colocar uma espada bem perto do meu pescoço. Se eu não sobreviver, você já sabe o que aconteceu.

— Não! — Gritei para Portia, já lhe dando as costas e correndo escada acima novamente.

Não acreditava que meu pai não tinha dito que era isso que tinha que fazer logo depois de falar comigo! Se Ben estava me mandando mensagem, era porque ele estava com seu celular, então estava no castelo, provavelmente indo para o seu juramento! Era um momento emocionante! Eu tinha que ir ver!

Subi de dois em dois degraus, o que era bem difícil de fazer, pois eles eram altos, e quase tropecei e quebrei os dentes contra o mármore do chão várias vezes. Seria lindo começar a estudar pela primeira vez em uma escola comum sem os dentes da frente. Mas isso não importava no momento. Já fazia meses demais que eu não via Ben, tendo que só me comunicar com ele por cartas, e não queria perder mais nem um segundo!

Assim que virei o corredor e dei de cara com a entrada para a sala de cerimônias, brequei e voltei até estar escondida atrás de uma armadura antiga. Um grupo pequeno de novos soldados da Guarda Dourada esperava do lado de fora em uma fila. Um por vez entrava na sala, fazia seu juramento, e eu queria tanto poder assistir o de Ben!

Busquei por ele, mas não era difícil de encontrá-lo. Ele era um dos dois únicos soldados negros, além do Sargento, que os mantinha em linha e controlava quem entrava e saía. Eu o reconheceria em qualquer lugar, mesmo de costas, e nem era pela sua mania de passar a mão na nuca quando estava nervoso, o que ele aproveitou para fazer assim que o Sargento estava ocupado deixando outro soldado entrar.

Ele virou a cabeça como se procurasse alguma coisa e seus olhos me encontraram. Eu sorri, mais uma vez sem conseguir reagir como queria. Ben continuou me olhando, sem parecer conseguir retribuir meu sorriso, até eu perdê-lo, não saber mais como agir, deixar de me esconder tanto assim e dar um passo na sua direção.

— Benjamin Bivalde! — O Sargento falou tão alto que até eu me assustei, mesmo longe deles. — Não me faça me arrepender de te deixar entrar para a Guarda.

Me escondi de novo, enquanto Ben abaixava a cabeça e entrava com ele na sala. Demorou mais do que eu esperava e acabei tendo que voltar mais ainda para perto da escada quando um homem saiu de um outro cômodo e foi na sua direção.

De onde estava, não conseguia mais vê-lo, o que só me deixou mais nervosa. Já estava fazendo um buraco no tapete de tanto andar em círculos, quando ouvi alguém se aproximar. Ben mal teve tempo de perceber quem era antes de eu enrolar meus braços em volta dele e apertá-lo com todos os abraços que não pudera dar nos últimos seis meses.

— Você sobreviveu!

Ainda que me esticasse nas pontas dos pés para alcançar seu pescoço, eu os sentia bem mais firmes no chão.





CAPÍTULO DOIS


Ben estava maior. Não em questão de altura. Teve uma época em que eu era mais alta do que ele, mas já faz uns três anos que ele me passou e muito. Ele já tinha dezoito anos agora, mas nunca comprava vinho para mim quando eu pedia.

Não que eu pedisse.

Ben estava mais largo, isso sim. Sentado ao meu lado no trem, seus ombros estavam maiores e me empurravam um pouco para a janela, o que teria me incomodado se não servissem tão bem para eu apoiar a cabeça e dormir. Para quem tinha começado a viagem com a música no volume máximo, eu mal conseguia distinguir qual era quando acordei.

Demorei um tempo para conseguir parar de piscar e me acostumar com a luminosidade da cabine do trem. Ben me observava, segurando um livro com a capa e tudo que já tinha lido dobrados para trás. Me deu uma pontada de dor no peito só de ver.

— É necessário maltratar seu livro desse jeito? — perguntei, sem qualquer expectativa de resposta. Era por isso que eu nunca deixava que ele chegasse perto das minhas estantes. Só a ideia de marcar a lombada já era uma tragédia para mim.

— Sabia que você vai abaixando o volume enquanto dorme?

— Sabia — respondi, me levantando e me esticando como conseguia.

Tínhamos reservado uma cabine inteira do trem para nós e mais uma para levar nossas malas. A viagem de avião até a capital de Vitória tinha durado pouco mais de duas horas, mas ainda tínhamos outras cinco. Portia estava no outro canto da cabine, longe da luz do sol e estudando um livro grande demais para ser indicado para quem ainda tinha um ano em escola preparatória antes da faculdade. Ela levantou o rosto como por impulso e seus olhos não subiram além da altura da minha saia.

Tinha uma razão para isso. Eu vestia a saia mais maravilhosa já inventada pela humanidade! Ela era cinza meio roxo, mas escura, com brilhos e glitter pequenos e tão intensos, que parecia que era metalizada! Ainda tinha pregas e era curta, mais de um palmo acima do meu joelho quando eu usava com a cintura alta. Toda vez que olhava para baixo, me dava vontade de girar e fazê-la levantar um pouco, além de que já tinha postado uma foto e três stories no Instagram para mostrar o brilho dela!

Não, eu não tinha criado a saia mais maravilhosa já inventada pela humanidade, mas queria ter!

— Vocês estão pensando em se trocar antes de a gente chegar lá? — Portia quis saber, falando com nós dois, mas claramente direcionando sua pergunta para mim.

Ben teria que se trocar para se passar por guarda da escola, tinha um uniforme novo para vestir. Só não conseguia imaginar por que eu teria que me trocar.

— Não, escolhi essa roupa exatamente porque queria vestir algo especial e aproveitar que faz bem mais frio em Belforte — respondi, sem conseguir esconder tão bem que estava na defensiva.

Desviei meus olhos para a janela e me deixei observar as fazendas que dava para ver dali.

— Em fevereiro, não é frio em lugar nenhum — Ben comentou.

— Na Sibéria? — Virei meu rosto para ele, que sorriu.

— Talvez na Sibéria — admitiu.

— Você escolheu meias acima do joelho como a primeira impressão que quer passar? — interrompeu Portia.

Uma olhada na direção do brilho roxo, prata e rosa dos diferentes glitters da saia, e minha confiança foi renovada.

— Primeira e única — comentei. — Você viu as fotos das peças que temos de uniforme? Certeza que dá para eu usar a saia e as meias deles desse mesmo jeito. São menos brilhantes, mas eu me viro.

Ela soltou sua caneta e se virou para mim.

— Olha, nós amamos seu jeito, Elisa, de verdade — Portia disse. Apesar de suas palavras, senti exatamente o contrário, que meu jeito era a última coisa que ela amava. — Mas você já não tem mais dezesseis anos. Em seis meses, vão anunciar que você é a princesa escondida. Precisa que as pessoas te levem a sério.

— E minhas meias as fazem não me levar a sério?

— Eu gosto delas, ainda que inapropriadas para o clima – Ben disse, me fazendo enrubescer como uma idiota por pensar que ele poderia ter prestado atenção nas minhas pernas.

— Elas são pretas — continuei com a primeira coisa que me veio à cabeça só para ter algo a falar.

— Você tem ideia de como é difícil ser ouvida como uma mulher? — Portia continuou, como se eu não fosse mulher também e não tivesse sido a primeira a falar sobre feminismo para ela. — Quando você aparece com uma saia brilhante e meia assim, parece só uma garota fútil que não tem nada na cabeça.

Talvez eu devesse conversar com ela sobre feminismo de novo, porque parecia não ter aprendido nada.

Eu acabaria ficando paralisada mais uma hora onde estava só pelo choque do que ela tinha falado, mas o trem brecou, e eu quase caí de cara nos bancos. Por sorte, Ben me segurou e manteve as mãos na minha cintura até eu me sentar outra vez.

Tive então a chance de pensar um pouco antes de respondê-la:

— Eu entendo que tem gente que vai me julgar pelas roupas que eu uso — comecei, engolindo a parte em que queria apontar para ela e dizer como você — mas não vale a pena deixar de me vestir como quero só por isso. Imagina se eu fosse mudar cada coisa em mim para que ninguém falasse nada! Se tivesse que mudar tudo que pudessem julgar, o que restaria de mim?

Senti uma pontada de saudades da tia Lena, que tinha ficado em Vilareal depois de uma despedida mais dolorosa do que eu tinha esperado. Ela sempre disse que eu era como uma esponja, que observava e absorvia tudo ao meu redor, que aprendia lições que nem sabiam que estavam me dando, mas esta ela me ensinara de propósito. Seja quem você é. Muitos podem te odiar e, mesmo que ninguém afinal te ame, não tem como se amar se você tira pedacinhos de si mesma para encaixar na visão dos outros. É melhor viver sozinha do que rodeada de pessoas e sem você.

Eu nunca confessei que tinha mesmo medo de acabar ficando sozinha para sempre, sem amigos, sem uma família que me reconhecesse como parte dela, mas me recusava a ir contra quem eu era.

— Não estou falando para você mudar quem é, só para se vestir com um pouco mais de sofisticação. Você é uma princesa, afinal. Apesar de que não sei como isso vai te ajudar muito agora que você se inscreveu na Casa das Artes — ela disse artes como se eu tivesse escolhido estudar esterco, e voltou ao seu livro.

O trem brecou por completo na última parada antes da nossa. Já estávamos no condado de Belforte, só precisávamos chegar até a capital homônima, a menor de todos os condados, mas a mais significativa também. Fui pesquisar mais sobre George Belforte, o líder da revolução parforcense que dava nome a tanta coisa, depois do comentário do meu pai. Tá, foram dez minutos na página do Wikipédia, não posso chamar de pesquisa mesmo, mas era verdade que a escola tinha uma competição entre as Casas a cada cinco anos para comemorar um número redondo do aniversário dele. A competição mudava a cada vez, então não tive como adivinhar qual seria agora e acabei me distraindo com uma página sobre o time de beisebol da cidade. Eles eram bem melhores do que o da capital, mas era obrigada pelo meu coração a torcer para os Reais de Vilareal para o resto da vida.

Ben se virou para mim como se estivesse prestes a falar alguma coisa, mas eu fui mais rápida:

— Já escolheu o que você vai estudar? — perguntei para ele e fingi não ver que Portia levantou o rosto de novo, olhou para cada um de nós e voltou a estudar.

Com a ajuda de meu pai, eu tinha conseguido uma bolsa para Ben fazer um curso paralelo na escola. Normalmente, eles só eram oferecidos para quem já tinha terminado o ano na preparatória, mas pular este ano era um dos privilégios de quem se alistava no exército ou na guarda.

Talvez o único privilégio além do básico: moradia, plano de saúde e pensão.

Ben colocou a mão dentro do bolso da calça e tirou um dragão de argila que já tinha perdido a ponta da asa.

— Adivinha — ele disse, e eu sorri, pegando o dragão.

Ele estava mais ou menos na mesma posição que o da nossa bandeira, mas ainda não tinha cor. Essa era a minha parte, apesar de eu sempre estragar as peças de Ben quando pintava. Não sabia por que ele insistia em me deixar “ajudar”.

— Você viu que o professor de escultura chama Pedro, né? Pensa na ironia — comentei. — Pedro, pedra. Escultura. Entendeu?

Ben me olhou como se eu estivesse falando alemão, e eu lhe empurrei pelo ombro.

— É engraçado, tá? Você não sabe apreciar meu senso de humor sofisticado. — Se alguém me perguntasse se aquela palavra tinha tido uma segunda intenção, negaria até a morte.

Ele riu, uma risada curta, mas genuína e alta, que me dava vontade de abraçá-lo.

— Já sabe que vai ter que fazer todos meus trabalhos para mim, né? — perguntei assim que o trem voltou a andar.

Não demorou nem dois minutos para estarmos vendo só campo de novo. As cidades neste condado eram pequenas demais! Não queria nem ver como era a capital, que não tinha mais do que doze mil habitantes! Eu tinha nascido para cidades grandes, não vilas.

— Eu não vou fazer coisa nenhuma — Ben respondeu.

— Mas não dá para contar com você para nada, hein?

Ele riu de novo, e eu lhe dei um leve empurrão com o braço. Portia bufou do seu canto, mas a ignorei. Preferi ficar olhando pela janela, brincando o dragão e tentando muito não pensar em tudo que estava prestes a mudar.






Todo mundo sabia que eu existia. Quer dizer, que uma terceira herdeira existia, ainda que meu nome tivesse sido divulgado como Princesa Victoria, o que era meu segundo nome. Todo mundo sabia que meus pais tinham decidido me esconder para me dar uma chance de uma vida normal e não lidar com a fama que vinha com o sobrenome Vieira até ter idade e maturidade para isso. Apesar de várias tentativas de descobrirem quem eu era durante toda minha vida, ninguém nunca tinha acertado. Tinha quem pensasse que eu vivia trancada no castelo, quem jurasse que eu tinha sido mandada para outro país (quase sempre chutavam a Espanha) ou que eu nunca tinha existido. Muitos achavam que o segredo era porque minha mãe tinha tido um caso com um cara tão diferente que ficava claro ao olharem para a minha cara, então tinham me escondido.

Eu era parecida demais com meu pai e com a família dele para haver alguma dúvida, e sempre me perguntavam se era filha de tia Lena por isso. Do lado dela, a história oficial era que meus pais tinham morrido quando eu era bebê, então Lena, minha única família, tinha me criado, mas quase ninguém tinha a chance de perguntar. Ela era mesmo minha tia, mas tinha se afastado da família real antes de eu nascer, de um jeito doloroso que só me explicou quando eu já tinha mais de dez anos, mas que a ajudou a me proteger. Meu pai disse que eu crescer com sua irmã era um jeito de ela se manter parte da família, mas eu sabia que era também para ele ter uma desculpa para vê-la.

Tinha muito carinho entre os dois, visível demais para eu não perceber toda vez que se encontravam, mas alguma coisa tinha acontecido também para criarem uma barreira entre eles que custavam a tentar derrubar. Toda vez que eu tocava no assunto, me deixavam falando sozinha e uma das vezes foi a única em que Lena gritara comigo.

Ela me criou quase como mãe, apesar de eu ter dividido meu tempo entre sua casa e o castelo. Agora eu teria um terceiro quarto para mim e duvidava que ele me pareceria mais meu do que os outros dois.

No castelo, eu tinha mais do que um só. Eram aposentos enormes, com quatro cômodos que se mantinham trancados praticamente sempre. Meu único jeito de entrar lá era pelos túneis e um outro quarto que se conectava diretamente. Pude decorá-los como queria e confessava que os amava como se fossem meu próprio mundo. A única parte dolorida era eles serem um segredo. Apenas dez pessoas já tinham entrado ali: eu, Ben, Portia, meus irmãos, meus pais, minhas duas criadas e Elena, assistente de relações públicas e dama de companhia da minha mãe.

Quando estava no quarto da casa de Lena, parecia que o castelo não podia ser real. Cabiam nele uma cama de solteiro, uma estante de livros estreita e uma escrivaninha. Minhas roupas eram guardadas embaixo da cama, em uma mala constante, só as que eu trazia a cada vez. Já tinha chegado a passar um mês inteiro sem voltar para o castelo, mas foi só em uma ocasião. Era estranho pensar que agora estaria em outro quarto, dividindo com uma pessoa estranha e sem a possibilidade de ir aos meus aposentos sempre que tivesse vontade. Mais estranho ainda pensar em como estava longe da capital.

A cidade de Belforte era realmente pequena e completamente diferente de Vilareal! Enquanto a capital tinha prédios coloridos com molduras brancas, Belforte era mais escura, com casas de paredes claras ou tijolos escuros e estacas de madeira quase preta formando desenhos sobre elas. A ilha onde ficava foi colonizada principalmente por alemães, tão acostumados com neve que construíram os telhados inclinados sem realmente precisar. Pesquisei sobre a cidade antes da viagem e teoricamente era até possível nevar, mas um tal de aquecimento global fez com que a última neve aqui tivesse sido no começo do século.

Tinha que admitir que logo fiquei encantada por Belforte. Era tão antiga e preservada que seria impossível não ficar! Os prédios eram baixos, provavelmente com menos de seis andares cada. Nós passamos por estátuas, praças e igrejas antigas com torre pontudas antes de o trem parar. Um rio corria pelo centro e desaguava no mar, e a estação de trem ficava perto dele, mas longe da costa. Estarmos tão próximos do limite de Parforce ao sul garantia um vento constante que quase, quase me fez feliz de usar as meias. Só não fez, porque o sol estava queimando meu braço pela janela do táxi que pegamos. Ainda tivemos que contratar outro para caber toda a nossa bagagem, o que me fez considerar se tinha exagerado ou era só por estarmos em três pessoas.

— Nós estamos atrasados — foi o que Portia disse quando entramos na rua da escola. Ela estava irritada por não conseguirmos manter seu planejamento até nos segundos. Puxava seu cabelo castanho claro com a mão como se quisesse arrancá-lo.

A escola era um prédio em tijolo vermelho escuro que parecia ter metade do tamanho do castelo à primeira vista. Nós viramos a esquina e o táxi entrou no estacionamento à nossa direita. Precisei de alguns minutos olhando para ela para absorvê-la. Tinha uma escadaria enorme na frente da porta, o suficiente quase para um andar inteiro embaixo do principal. Peguei o mapa do meu bolso e aproveitei para ajeitar a saia e me abanar com ele rapidamente. Talvez a meia não tivesse sido a melhor das ideias.

Segundo as informações da carta de aprovação, eu estava em frente ao prédio principal, onde ficava a biblioteca, o auditório, a ala hospitalar e os andares de dormitórios, além de outras coisas. Eu teria que dividir com uma garota da Casa das Ciências, mas só descobriria quem era quando a encontrasse. Os quartos podiam ser mistos, o que era um avanço enorme para uma escola que tinha começado como só para meninos, mas meu pai fizera questão de escolher quem seria minha colega de quarto.

Eu estava torcendo tanto, mas tanto para não ser Portia! Ela já tinha entrado no prédio, encontrado algum funcionário e mandado ele nos ajudar com as malas e caixas. Eu ainda estava parada do lado do carro, torcendo para que meu pai não tivesse tido a brilhante ideia de me fazer dividir um quarto com ela. Dois anos atrás, isso teria sido um sonho, mas agora seria um pesadelo.

—Você está no quarto 281, Elisa — ela me disse, me entregando um papel. — E eu no 189.

Tive que esconder meu suspiro de alívio.

— Você vem ou não, Lis? — Ben perguntou, aparecendo na minha frente com uma caixa nas mãos.

Peguei uma mala, ajustei minha bolsa no ombro, respirei fundo e o segui para dentro da minha nova casa.



Já tinha colado o mapa mundi atrás da minha cama, uma bandeira de Parforce logo em cima, um pôster dos Caçadores das Sombras e mais alguns de outros livros. Pendurava um que recebi no CD Reputation da Taylor Swift quando minha colega de quarto chegou.

— Nossa, você é bem patriota — foi a primeira coisa que a ouvi dizer.

Parei de organizar minha prateleira para virar para a porta. Ela tinha cabelos pretos e lisos que paravam logo acima dos seus ombros, com uma franja retinha sobre os olhos. Parecia um pouco mais baixa do que eu, mas era mais gorda, tinha um rosto bonito e simétrico e parecia ser alguma modelo que só minha memória péssima me impedia de reconhecer.

— Eu gosto das cores — falei estupidamente.

Quem penduraria uma bandeira pelas cores? Mas era mais fácil do que dizer que era apaixonada pelo design, pelo dragão dourado e o que ele representava para uma princesa.

— Certo — ela respondeu, me esticando sua mão. — Chloe Choi Lacerda prazer.

Na hora, entendi por que seu rosto me pareceu familiar.

— Você é a filha do Ministro Lacerda! — Exclamei sem conseguir me conter e a cumprimentei.

Ela sorria, mas sua testa franziu. Apostaria que seus olhos eram verdes, mas agora chegavam perto de cinzas no quarto mal iluminado.

— Você entende de política? — perguntou, me dando vontade de rir.

Imagina só, alguém achando que eu entendia de política! Minha irmã ia achar que era uma piada, mas Chloe parecia falar sério.

— Não exatamente — respondi. — Mas seu pai é conhecido. — Me arrependi na hora pelo comentário.

Seu pai realmente era conhecido, mas mais porque era casado com uma mulher sul coreana, que eu tinha que presumir ser a mãe de Chloe, já que estavam juntos há tanto tempo e elas dividiam certas feições. Era de se esperar que os tabloides parassem de falar dele só por isso em algum momento, mas até eu já tinha percebido que não conseguiam mencionar Lacerda sem mencionar a Coréia do Sul.

Argh. E eu acabei de fazer o mesmo.

— Gosto de viajar. De geografia — corri para explicar, me embaralhando cada vez mais. — Não que eu vá estudar geografia, mas gosto de mapas — apontei para o que estava atrás da minha cama. — Ele é Ministro de Relações Exteriores. Eu gosto de viajar para o exterior.

Se tivesse mencionado que eu amava ouvir rap, ler ficção científica e desenhar minhas próprias roupas, teria encaixado tanto quanto o resto das informações inúteis e desconexas da minha explicação.

— Ou então você já assistiu a algum jornal falando sobre ele e minha mãe?

— E sua irmã — completei como a idiota que era. Por que minha boca tinha que funcionar tão mais rápido do que meu cérebro?

Chloe, em compensação, só sorriu como quem já esperava aquilo.

— Não que eu concorde com eles. Com os jornais, quero dizer — eu tinha que continuar falando?

— Não se preocupe — ela se virou para a porta e puxou uma mala para dentro do quarto. — Vamos fazer assim. Você finge que nunca leu nada sobre a minha família e eu finjo que não sabe de nada ainda sobre mim.

— Combinado — respondi, mas ela tinha saído do quarto de novo, voltando dessa vez com uma caixa.

— Você já dividiu quarto alguma vez na vida? — me perguntou, apoiando a caixa em cima da sua cama, que ficava do outro lado do quarto.

— Não. Tem alguma coisa que eu preciso saber?

— Precisa saber que tem outra pessoa aqui e que às vezes o que é mais confortável para você pode me atrapalhar.

— Ah — foi minha única reação. Não que eu não tivesse me perguntado como ela poderia ser, mas agora começava a questionar como eu seria para ela.

— Acho que criar regras é interessante — Chloe continuou, enquanto eu me sentava na cama e trazia os livros que ainda segurava para o colo. Olhei rapidamente para a porta aberta quando achei que Ben estava voltando, mas foi outro guarda que passou. — A primeira tem que ser falar sempre a verdade.

Isso me fez voltar a olhar para ela na hora.

— Como assim? — perguntei sem mexer muito a boca, com medo de que ela já tivesse descoberto quem eu era.

— Sem atitudes mesquinhas, passivo-agressivas. Se você tem algum problema comigo e com algo que eu fiz, me fale. Converse comigo, que não tem nada que não se resolva com uma conversa.

— E uma cerveja — falei automaticamente, já que era um ditado tão conhecido em Parforce. — Ou com um café — completei do meu jeito.

— Exato. Mesmo que eu tenha algum defeito fatal, vem falar comigo sobre ele que a gente se entende. Mas isso não significa que eu tenho que me adaptar a você. Nós duas precisamos abrir mão de algumas coisas às vezes para chegar a uma harmonia.

Estremeci, percebendo pela primeira vez que o quarto estava frio.

— Certo — falei, mas Chloe percebeu que eu me encolhia.

— Esse prédio é meio gelado, né?

— Ontem à tarde, eu estava tomando água de coco com os pés na areia — falei, me esticando para fechar a janela em cima da minha mesa. — Em Vilareal — completei, quando vi a questão se formando no rosto de Chloe.

— Eu sou de Bianchi, em Caldas. Não é tão quente quanto a capital, mas nossa. É mais quente que aqui! — Ela pegou seu celular e o virou para mim depois de um tempo, me mostrando o clima. — Está vinte e sete graus lá e só vinte aqui!

— Meus pais queriam que eu trouxesse um aquecedor — admiti.

Ela parou para pensar, mas guardou o celular e voltou a arrumar suas coisas. Ainda não parecia ter chegado a nenhuma conclusão quando disse:

— Pode ser um pouco difícil chegar a um acordo quanto à temperatura do quarto.

— Já teve que dividir muitos quartos? — perguntei.

Ela suspirou e parou de tirar coisas das caixas, se virando para mim.

— Eu tenho uma família bem grande.

Eu também, queria dizer, mas a maior parte dela nem sabia que eu era da família.

— Combinado então. Qualquer que seja o problema, a gente conversa.

— E falamos sempre a verdade — ela completou.

Engoli em seco.

— Sempre a verdade.

Foi nessa hora que Ben chegou, vestido com seu novo uniforme dourado e quase mais metálico do que a minha saia, sorrindo de orelha a orelha. Ele parou bem no espaço da porta e ajustou as mangas da jaqueta, depois passou os dedos pelos botões duplos no peito e ajustou sua postura sob as ombreiras.

— Como estou? — perguntou.

Eu me levantei e parei de frente para ele, ao pé da minha cama.

— Não sei, acho que você precisa bater continência para descobrir.

Ele sorriu, mas seus olhos foram até Chloe atrás de mim.

— Sou guarda de uma escola, não do exército — respondeu, e entendi a besteira que eu tinha feito.

— Mesmo assim — insisti de brincadeira, e ele levou a mão à sobrancelha, em uma pose oficial.

Seu cabelo estava bem curto nas laterais e mais comprido em cima, os cachos castanho-escuro ainda não tinham sido domados como mandava o uniforme e isso o deixava bem mais bonito. Eu o observei por tempo suficiente para ele não conseguir mais controlar seu sorriso, e as sardas em sua bochecha foram tomadas por rugas que apareciam desde que éramos crianças. Meus olhos passavam pelo seu uniforme, mas foram atraídos para os seus quando ele perguntou de novo, dessa vez quase em um sussurro:

— Como estou?

Ele franzia as sobrancelhas de um jeito só dele e que me forçou a dizer:

— Perfeito.




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