• Laura Machado

Bridgerton, o Duque e Eu e a cena polêmica

Aviso: esse post tem spoilers para o livro O Duque e Eu da Julia Quinn e alguns para o episódio 6 da primeira temporada da série Bridgerton da Netflix.


Faz um tempo já que romances de época andam fazendo sucesso no Brasil. Editados com um projeto gráfico que puxa mais para livros de romances do que os de banca de jornal (como é nos EUA), eles encontraram um público maior aqui do que romances do mesmo gênero tinham antes, e os livros da Julia Quinn começaram um movimento que foi seguido por várias autoras e várias editoras diferentes desde então.


Eu mesma nunca me interessei muito por romances de época, preferia romances históricos e de ficção histórica. Até onde eu sei, a maior diferença entre esses gêneros está nas liberdades que os autores tomam para desenvolver o enredo. Quando um livro é mais focado no romance e nos personagens, sem fazer tanta questão de ser historicamente correto, ele é um romance de época. Livros de ficção histórica são mais realistas, se parecem menos com novelas e, por isso, romances de época acabam sendo julgados como "fútis" ou inferiores, quando são somente diferentes.


Isso me impediu de ler romances assim por um tempo. Essa visão que eles me passavam me deixou com um pé atrás, porque tinha a impressão de que eles eram forçados, inconsistentes e exagerados no drama. Mas eu sempre fui completamente apaixonada por séries de época, ainda mais as que se passam no Reino Unido, então é claro que fui correndo assistir à Bridgerton assim que lançou e depois acabei lendo em seguida o livro O Duque e Eu.


O QUE EU ACHEI DE BRIDGERTON


Eu já esperava adorar a série. Gosto muito do trabalho da Shonda Rhimes, até fiz o curso sobre escrita de roteiro dela na MasterClass, então tinha altas expectativas para ela. Gostei bastante de como a série mostra os irmãos Bridgerton, apesar de que eu não tinha nenhuma noção direito de como eles seriam. Adorei ver que usaram fatos históricos para introduzir mais personagens negros, ainda que tenha sentido falta de personagens LGBTQIA+. Em geral, gostei bastante da série e estou ansiosa pelas próximas temporadas.

Só tenho duas críticas para ela, na verdade. A primeira é sobre os protagonistas. Gosto do Simon, e a Daphne me pareceu interessante no começo, mas acho que oito episódios é demais para ter o foco nela. Ela é interessante, mas nem tanto. É um pouco sem sal também. Perdeu a graça lá pelo episódio quatro, que eu acho que deveria ter tido o foco em algum dos outros Bridgertons. Também acho que focar em um personagem por temporada vai acabar enrolando demais a história.


Minha segunda crítica é bem maior, com alguns pontos, e vai ficar para a parte em que eu falar da cena polêmica.


O QUE EU ACHEI DE O DUQUE E EU


A série me causou exatamente o que eu esperava que causasse: uma vontade louca de ler os livros. Eu já queria ler fazia um tempo, mas a cena de estupro que acontece no capítulo 18 foi o que me segurou. Depois da série, resolvi ler e descobrir sozinha como era a cena e julgar por mim mesma. Ouvi o audiobook em inglês na Storytel que tem a história completa e o segundo epílogo extra.


Eu não esperava grande coisa, admito. Fiquei um pouco surpresa por ter gostado, mas queria ter gostado mais. Achei que a personagem da Daphne foi mais engraçada e divertida no livro do que na série, apesar de ela se fazer de clássica garota irresistível e bonita que não sabe que é bonita.

Achei o Simon muito puxado para o clichê homem forte e silencioso com passado sofrido que é incompreendido por todos e poderia ter qualquer garota que quisesse, mas quer logo aquela que se acha feia e sem graça. Também achei a possessão dele, ainda que coerente, bem ruim, o que me deixou desconfortável com várias atitudes suas. Por exemplo, quando ele ameaçou quebrar uma porta por ela ter trancado e depois ainda teve uma cena em que se afasta dela, pensando que tem que sair de perto senão pode machucá-la. Pequenas atitudes, mas que são sinais de alerta para um relacionamento abusivo ou tóxico. Claro que a autora controla isso, então acabou transformando na relação perfeita, mas na vida real um homem que tem atitudes assim muito provavelmente vai maltratar sua mulher algum dia.


Também achei que alguns diálogos foram forçados e bastante bregas, me fazendo estremecer em voz alta e cortando bastante do clima do livro. Por último, o narrador onisciente tirou muito do mistério, da tensão e da apreensão que eu poderia ter sentido se tivesse um único ponto de vista, se tivesse vivido tudo ao lado de Daphne.


O livro é okay, na verdade. Dei 3 estrelas. Se demora em algumas partes desnecessárias, tem cenas que são prolongadas e que não saem do lugar. Além disso, a relação entre os personagens perdeu um pouco da graça, na minha opinião, quando eles parecem ter sempre atitudes modernas, com consequências só quando é uma vantagem para o enredo. Mas não achei tão ruim assim. Tirando, é claro, aquela cena.


SOBRE A CENA DE ESTUPRO NA SÉRIE


Se você não sabe, uma polêmica (mega válida) que vem acontecendo entre fãs dos livros dos Bridgertons há muito tempo e que se intensificou desde que a série foi anunciada e depois lançada é sobre uma cena em que a Daphne estupra o Simon. Muita gente ficou esperando que a série não colocasse a cena, eu inclusive, mas se decepcionou por ver que os roteiristas decidiram manter.

Na minha opinião, se o livro não exisitisse, a cena da série seria problemática e mostraria um lado podre da Daphne, mas não seria tão ruim. Antes de se casarem, Simon disse para Daphne que não poderia ter filhos, o que era um sonho dela, mas ela insistiu em se casar por o amar. Pouco antes da cena, Daphne percebe que, sempre que ela e Simon transam, ele ejacula fora dela. Ela é uma garota que não entende absolutamente nada sobre sexo, não teve a menor educação sexual e que depende completamente dele para tudo que ela sabe sobre isso. Por isso só, acho que a cena que vem depois, de ela impedir que ele consiga sair dela a tempo, fez sentido. Ela, uma garota que sentiu que ele a tinha manipulado e que tinha se aproveitado da ignorância dela, a fazendo entrar em um contrato de casamento para a vida inteira com uma meia-verdade (ele pode ter filhos, só não quer) e depois medindo informações sobre educação sexual que seriam importantíssimas para ela, se manteve em cima dele para ele ejacular dentro dela e para descobrir afinal se ele tinha mesmo mentido.

Foi certo? Claro que não. O próprio Simon diz, "Espera", ainda que tenha sido tarde demais. Por isso que eu digo que seria uma atitude ruim que mostraria um lado podre dela. Mas ainda acho que seria um questionamento válido, principalmente para uma mulher naquela época. Ainda assim, tenho dois problemas com essa cena na série.


Primeiro, a série perdeu a oportunidade incrível de mostrar que ejacular fora não garante que não vai engravidar. Não garante nem um pouco. Pelo amor de Deus, se você usa essa "técnica", pare agora e vá se informar melhor sobre métodos contraceptivos AQUI. Além disso, a cena não ajuda mesmo em nada, não acrescenta nada. Poderia muito bem haver uma briga e só. Fiquei com a impressão de que eles queriam a polêmica, queriam a atenção que isso daria a eles (e olha eu aqui, ajudando).


Mas meu segundo problema com essa cena é que a Daphne é tratada depois como a certa, como quem tem razão na briga, não como alguém que tomou uma atitude péssima e errada. Não importa muito qual era sua motivação, ela não deveria ter saído como a certa, como quem estava esperando o outro pedir desculpas. Ela deve bem mais do que desculpas ao Simon também.


SOBRE A CENA DE ESTUPRO NO LIVRO

A cena começa na página 237 da edição comum de O Duque e Eu da editora Arqueiro. Eu ouvi o audibook em inglês (original), principalmente porque eu já assinava a Storytel e não queria gastar mais dinheiro para ler um livro que eu sabia que teria uma cena de estupro que até hoje a autora defende.


Para mim, a cena do livro é imperdoável, não porque ele diz "não", ou "espera", ou qualquer coisa assim, mas por que ela já sabia antes que ele não queria ter filho. A briga dos dois acontece antes, ou seja, ela já tinha todas as informações, já sabia o que estava fazendo. Não tem como alegar ignorância nesse ponto.

Pior que isso, Simon está bêbado, dormindo, o que ela literalmente pensa para a levar a tomar essa atitude. Ele "acorda" no meio, mas para mim ainda não tem como defender. Ela simplesmente começa a tocar nele enquanto ele dorme, e isso é estupro. Ele acorda ainda bêbado, longe de poder tomar alguma decisão sobre consentimento. Ela sabia que ele não queria, sabia por que ele ejaculava fora. Não tem como perdoar.


O pior é que, outra vez, a cena não faz a menor diferença no enredo. Ela poderia ter sido cortada sem atrapalhar nada, Daphne poderia ter um susto de gravidez, um atraso na menstruação somente pelo fato de que a técnica de ejacular para fora NÃO FUNCIONA.


Além disso, essa atitude da Daphne, apesar de encaixar até bem com ela na série, não encaixa nem um pouco com a personalidade dela no resto da livro. A pessoa que ela se mostra desde o começo e até depois dessa cena não é a mesma que tomou essa atitude. Fiquei com a impressão de que era algo que alguma pessoa de fora tivesse escrito para o livro e acrescentado sem a permissão da Julia Quinn e da editora, já que nem encaixava. Completamente desnecessário.


E eu super perdoaria a autora por ela ter sido tão ignorante quanto a Daphne em entender, antes do ano de 2000 (quando foi lançado) que o que ela fez foi estupro, se não fosse pelas suas próprias atitudes desde então. Não importa quantas vezes fãs e leitores falam para a autora sobre a problemática da cena, ela continua a defendendo ou ignorando.


Meu desejo é que criassem edições novas com essa cena editada. Mas duvido que há alguma esperança.


CONCLUSÃO


Se eu decidir continuar com a série de livros, vai ser só por audiobook mesmo, porque não quero os livros na minha estante e nem tenho dinheiro para gastar neles (livros em inglês estão muito caros ultimamente). Entendo quem gosta dos livros, entendo os fãs, nem acho que você precisa abandonar os Bridgertons, deixar de ser do fandom por causa dessa cena. Mas nunca passe pano para ela, nunca ache que está tudo bem, nunca deixe a autora escrever algo assim e não receber as críticas que merece. Nunca perpetue a ideia de que uma cena de estupro, mesmo na qual mulher seja a estupradora, é aceitável. Questione, reclame, se informe. A partir daí, é você quem decide se o seu amor pelo resto da história é mais importante.



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