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Dicas de Como Escrever uma História: A Escrita

November 1, 2016


    Existem dois tipos de escritores no mundo. Aqueles que priorizam a história e aqueles que vivem pelas palavras. A importância da escrita depende de qual você é.
    Para mim, um livro é feito de suas palavras. Nenhuma história me convence sozinha. Eu acredito que consigo imaginar a história que for, então quase nunca me impressiono com as ideias, sejam elas insetos gigantes ou escola de bruxos. Claro que esse tipo de criatividade é desenvolvido e não significa que eu realmente vou ter, em algum momento da minha vida, todas as ideias que todo mundo já teve. Não estou de jeito algum desmerecendo as histórias incríveis e únicas que já foram criadas. Só estou dizendo que elas sozinhas não significam nada para mim.
    Eu sou o tipo de escritor que se importa bem mais com como elas são contadas. Não sou curiosa, crio o final que eu quiser ou até mesmo fico satisfeita em não ter final. Não leio um livro inteiro para saber o que vai acontecer. Pouco me importa o que vai acontecer. Eu não preciso de outras histórias, tenho minha própria imaginação. O que eu quero ver em outros escritores são suas palavras e seu instinto para juntá-las. Isso, eu não consigo imitar de jeito algum. Cada escritor é único, cada impulso e estilo também. Isso que é bonito de se ver. Suas frases, suas expressões, suas descrições. Isso, para mim, é que é escrita.
    Histórias são passadas de boca a boca. Um livro tem que valer mais do que isso. E, quando é bem escrito, não precisa de grandes acontecimentos ou ideias inéditas. Clichês vendem quando são bem feitos. Não existe história batida que resista a palavras inusitadas. Mesmo que você já tenha visto aquilo mil vezes e até saiba o final, você lê o livro inteiro porque está curioso para saber como o escritor vai escrever quando chegar lá. Não é a mesma coisa se você fizer de um jeito novo. E isso diferencia escritores e amadores.
    Se você se importa com a escrita como eu, esse capítulo é para você.

 

    Português:


    Começando pelo grande vilão - e aqui vale para qualquer que seja a língua na qual você escreva. Se está mais preocupado com a história, essa parte passa batida. Mas se importar com o que escreve é se importar com a língua na qual escreve. É tentar, no máximo da sua habilidade, lhe fazer justiça. (E, acredite, um pouco mais de carinho e atenção à língua vai ajudá-lo a ter mais leitores!)
    Por azar do destino, português é uma das línguas mais difíceis do mundo, não só para dominar em fala, com também para escrever. Por isso, já vou avisando: é completamente inútil tentar escrever perfeitamente bem. Aliás, não só acho inútil, como desvantajoso. Se ninguém fala um português perfeito, colocá-lo no seu livro só vai fazer tudo soar estranho. Mesmo que a escrita seja feita de palavras nem sempre tão habituais, também não devemos forçar o leitor a carregar um dicionário junto. Claro, aqui vai depender do seu estilo, do universo e dos personagens da história. Mas ter que parar sempre para procurar o significado das palavras vai tirar seu leitor do clima da história e cansá-lo. O livro não deve ser uma aula de português.
    Mas isso não significa que podemos então escrever de qualquer jeito. É impossível focar em perfeição, mas não em progresso. Se você se importa com a escrita, não vai aceitar erros absurdos na sua história ou na de qualquer outra pessoa. Até leitores que não sabem praticamente nada de português conseguem perceber quando você não tem ideia do que está fazendo.

 

    Dicas rápidas para evitar erros comuns:


    Ortografia é corrigida hoje em dia pela maioria dos sites, senão programas de escrita. Sempre que possível, veja se não está escrevendo uma palavra errada.
    Concordância também dá para checar em programas.
    Crase tem uma regra bastante básica e fácil de memorizar. Só existe quando você precisa colocar a preposição 'a' junto com o artigo definido feminino (no singular ou plural) e  'aquele', 'aqueles', 'aquela' e 'aquelas'. Para testar, troque por algo simples no masculino. Se você tiver que colocar 'ao', então precisa usar a crase.
    Não use vírgula para marcar pausas em leitura. Elas não foram feitas para isso. Se você precisa criar uma pausa que não é natural do português, use. Ponto. Final.
    Não tenha medo de ponto final. Use-o todas as vezes em que a frase acabar. Vírgulas não oferecem o tempo necessário para o leitor respirar entre informações. Não ache que estão lendo pausadamente se você está escrevendo cinco, seis, sete linhas sem um único ponto final.
     Aliás, não importa o tamanho do sujeito, mesmo que ele dure por linhas, não use vírgula para separá-lo do verbo. Nunca. Quem faz a ação deve estar logo ao lado dela.
    Faz muito tempo que eu vejo pessoas mudando o verbo para 'fazem' quando são horas e horas. 'Faz' é invariável. Fica do mesmo jeito, não importa quanto segundos, minutos, milênios se passaram.
    Mesma coisa com 'há'. Faz horas que eu postei o capítulo. Eu postei o capítulo há horas. Há. E não a ou à. 


    Uma outra coisa que eu vejo bastante é uma pressa enorme para explicar os acontecimentos. Não precisa disso. Na verdade, por favor, não tenha pressa. Ainda mais se for uma cena importante, como quando o casal principal se conhece ou seus personagens sofrem algo traumático. Nessas horas, passe o tempo que precisar descrevendo o que eles estão vendo, o que estão sentindo, os detalhes de tudo. Deixe que fiquem ansiosos com o que está por vir. Vai dar muito mais emoção e fazer os leitores se lembrarem daquela cena para sempre. Aproveite o momento, não corra de ponto em ponto da história por preguiça. Não vale a pena. Se não está disposto a explorar cada cena até onde ela precisa, pare de escrever e continue depois.
    Agora, uma coisa muito importante que você deve evitar mais do que qualquer outra coisa é trocar o tempo verbal da história durante frases. Não comece contando algo no passado e na próxima frase mude todos os verbos para o presente. Esse é o jeito mais fácil de desconectar seus leitores da história e mostrar que você não está nem aí para o jeito que escreve (mesmo que esteja). Decida no começo se a narração vai se passar no passado ou no presente e se prenda a isso. Acredite, faz uma diferença enorme.
    Para mais dicas gramaticais, procure no Google a liste de Cem Erros Mais Comuns da Língua Portuguesa. Vale a pena.

 

    Diálogos:


    Naturalidade é importante. Mesmo que você sempre queira escrever o melhor possível, precisa entender que seus personagens talvez não usem português com a mesma qualidade. Na narração, mesmo que em primeira pessoa, talvez você possa fazer o seu melhor e praticar tudo que tiver aprendido na escola. Mas não ache que um adolescente vai fazer questão de falar tudo certo quando estiver conversando com seu melhor amigo. Aproveite os diálogos para errar, para usar 'te' logo depois de 'você', para fazer uso de gírias que encaixem bem. Vá contra as regras, priorize seu personagem. 
    E isso depende da pessoa. Um rei, por exemplo, vai fazer mais questão de falar direito do que outras pessoas. Ou talvez quando o seu personagem estiver em um evento mais formal, vai usar menos gíria. Não escreva os diálogos só por escrever. Preste atenção nos detalhes. E, principalmente, lembre-se de diferenciar os personagens entre si, não só em questão de personalidade, como de falas. As expressões que eu uso não são as mesmas de todas as pessoas que eu conheço. Pense nisso.

    Aspas ou travessão?
    Por falar em diálogos, uma coisa que qualquer leitor das minhas histórias já deve ter percebido é que eu não uso travessões. Na verdade, tenho até uma certa aversão a eles. Só uso aspas. Muita gente reserva aspas para pensamentos. Mas, até hoje, eu só escrevi em primeira pessoa praticamente. Não preciso separar os pensamentos da narração, eles são a narração. Deixo as aspas para as falas. E tenho duas razões para isso.
    Tá, talvez três, contando que eu não leio livros em português há anos e que isso deva ter me influenciado bastante.
    Mas eu não gosto de travessão porque associo com história de criança. Essa é uma das razões. E a segunda é que eu acredito que o travessão separa a fala demais da narração. E, quando eu escrevo, os dois tem que estar bem juntos. Na verdade, sempre considerei diálogos quase secundários. Então necessito dessa sensação de que um está preso ao outro, é extensão do outro. Só consigo isso com aspas, que são lindas.
    
    Revisão:


    Claro que, quando você está escrevendo, vai acabar cometendo vários erros que até mesmo conhece. Não confie só na própria atenção. Use programas para checar, revise quando terminar de escrever e meses depois também. E fique calmo. Mesmo depois de todos os pentes finos que você passar, algumas coisas ainda vão sair erradas. Só de você se importar, só de caprichar já é o suficiente. Não precisa enlouquecer, só fazer o seu melhor.
    Dito isso, preciso admitir que tem alguns erros que eu cometo de propósito. Por exemplo, sei que não devo começar uma frase com um pronome oblíquo e nunca começo. A não ser com 'me'. Pode cair o mundo me falando que está errado, não nego e não mudo. Eu gosto. É minha exceção e é de propósito.
    Outra coisa que eu faço é usar 'ele' e 'ela' para verbos como amar e querer. Não falo, 'eu o amo'. Falo, 'eu amo ele'. É um pouco tonto da minha parte, mas é algo que realmente me incomoda. Sei que está errado e até sinto uma certa estranheza ao falar em voz alta. Mas é dessa estranheza que eu gosto. Acho que, nesse caso, vale bem mais o sentimento do que o português. É mais específico, mais direto. Menos racional.
    Se você está cometendo um erro de propósito, se tem uma razão para ele, não se preocupe. Ele não é erro. É estilo.

 

    Repetições:


    Muita coisa depende de como você gosta de escrever. Ter um estilo de escrita é fazer as coisas de propósito. Por exemplo, outra coisa que qualquer pessoa que já tiver lido um único capítulo meu sabe é que eu adoro repetições. Realmente adoro. Uso até aqui, impossível você ainda não ter percebido.
    Mas só gosto de repetição proposital. E dá para perceber quando é sem querer. Eu reviso cada capítulo depois de terminar (e às vezes até antes) e essa é uma coisa na qual presto bastante atenção. Como faz parte do meu estilo, tenho que tomar cuidado para não ficar cansativo e não acontecer sem eu querer. Repetições não são monstros para mim, como são para muitos escritores que as evitam a qualquer custo. Mas podem afundar, sim, minha história.
    É até fácil evitá-las. Quando estiver revisando, tente se afastar de outras palavras, mesmo em música. E leia o capítulo de uma vez. Já perdi muitas repetições porque tinha parado em um parágrafo e, quando voltei, já tinha esquecido que uma certa palavra tinha sido falada algumas linhas antes. Existem termos mais inofensivos, que você pode falar mais de uma vez quase seguida e nem vão aparecer muito. Depende da intonação da frase e da importância da palavra. Mas existem outros que soam repetitivos até com palavras somente parecidas por perto. Como, por exemplo, 'descer' e 'descida', 'olhar' e 'olhada'.
    Quando você notar alguma repetição, procure sinônimos e troque. Muitas vezes fiquei testando vários em uma única palavra, até deixá-la como estava antes e ir trocar a outra por um sinônimo. Só lembre de reler uma boa parte da história depois de mudar uma palavra. Talvez você tenha resolvido um problema, mas criado outro. 
    Outro tipo de repetição que você deve sempre evitar é de ideias. Não faça seu personagem pensar algo na narração para logo em seguida falar para alguém. Se ele já vai falar, prepare o terreno e guarde as palavras e ideias para o diálogo. Além de desnecessário, dá ao leitor a impressão de estar girando em volta da mesma coisa sem parar. 
    

    Começos:


    Não existe dúvida para mim, a parte mais importante de qualquer livro ou capítulo é a primeira frase. Isso vai de estilo, claro, mas é nela que você agarra os leitores e não deixa que eles o abandonem até terem terminado o capítulo. Muitos dos meus leitores já perceberam isso e já me elogiaram muito. Não só pela primeira frase, mas o primeiro assunto. Gosto de começar o capítulo no meio de um pensamento, ou criando um paralelo para depois voltar ao principal. Em alguns parágrafos, já consigo colocar os leitores dentro da cabeça do personagem e se sentirem na pele dele. É aí que a mágica acontece.
    Nem sempre isso é possível. Para falar a verdade, dependendo da importância do personagem, às vezes eu resolvo desistir de toda essa pressão e simplesmente começar a escrever. E tem jeito mais fácil do que por um diálogo? 
    Mas, na maioria das vezes, eu demoro horas, às vezes dias, pensando em como vou começar. Qual vai ser o primeiro pensamento? Como ele vai se ligar ao que está acontecendo na vida do personagem? Qual será a primeira frase?
    Se o começo é importante, a primeira frase é mais ainda. Gosto de deixá-la especialmente vaga. Ou curta. Direta. Quase nunca levo uma linha inteira nela. É um rio no qual os leitores pulam, que já corria antes deles mergulharem. Precisam se acostumar com a correnteza, ler mais algumas palavras, chegar a outros pontos finais para entendê-lo. E, quando chegam, quando descobrem o porquê de todo aquele pensamento, todas as pontas se amarram e eles, finalmente, se sentem como uma grande parte do personagem. Já não mergulham no rio, são o rio. E tampouco conseguiriam abandoná-lo.
    O começo define o interesse dos leitores. É ele que decide se vão continuar lendo a história até o final ou se vão parar no meio.
    Mas não se preocupe. Muitas vezes isso demora para vir. Às vezes, você está quase no final quando pensa no jeito perfeito de começar o primeiro capítulo. Essas coisas acontecem. Se você fizer o melhor possível, se dedicar a atenção e o tempo extras ao jeito que você começa o livro e cada capítulo, isso vai transparecer na história. Seus leitores vão perceber e apreciar.

    
    Conclusão:


    A escrita é composta da língua na qual você escreve, do seu estilo e de seus vícios. No meio disso tudo, vários erros sempre vão aparecer, não importa o quanto tente evitar. Eu reviso meus capítulos como dá, mas teria que tirar alguns anos para fazer o trabalho de um editor nas minhas histórias e, provavelmente, não conseguiria nem assim. Não sou perfeita e nunca conseguiria ser. Nem você. Não enlouqueça tentando chegar lá, só se importe e faça seu melhor. Abrace a escrita como parte essencial da sua história e a faça com carinho e atenção. Isso mostra que você é também apaixonado pelas suas histórias e vai fazer uma diferença enorme. Seu leitores vão agradecer!

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Sobre a Autora

Laura Machado

Laura Vieira Machado nasceu em Minas Gerais em 1991. É formada em Moda pela Faculdade Santa Marcelina, de São Paulo. Fala cinco línguas e, quando tinha vinte anos, foi morar na Europa durante dez meses, alternando entre Alemanha, França e Espanha, aproveitando para visitar vários outros países e colecionar memórias inesquecíveis. Na Inglaterra, fez questão de conhecer a casa onde morou Jane Austen, uma de suas autoras preferidas. É mais viciada em café do que Elisa Pariseau. Assiste a muitas séries e não conseguiria viver sem música. É apaixonada por livros românticos e intensos. Escreve o que lhe dá vontade de ler.

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A Princesa Escondida

Primeiro livro da série, A Princesa Escondida foi publicado em Junho de 2017 pela Editora Novo Século, com o selo Talentos da Literatura Brasileira. 

Sobre o Livro

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